O que a China é
Desmistificando a visão superficial que o ocidente tem sobre uma das nações mais hostis do mundo.
Como estava sem pauta para escrever sobre geopolítica, acabei me deparando com essa nota1 do professor Fabio Blanco, da qual destaquei a parte do texto com a qual tenho discordância. Hoje em dia é complicado discordar publicamente de alguém, mas espero que o professor não se aborreça com estes poucos comentários.
Antes de mais nada, saibam que não discordo da nota como um todo. É evidente para quem está minimamente informado sobre os acontecimentos geopolíticos que a visão paradoxal e dicotômica descrita sobre esta nação hostil é verdadeira; e quando falo nação, não se entenda apenas o governo, mas também o povo. A grande maioria das pessoas realmente enxerga a China através deste prisma distorcido com apenas duas cores.
Minha discordância, porém, está no conteúdo que fundamenta essa suposta dualidade. Para acompanhar meu raciocínio, deve-se ter em mente algo que muitos estudiosos dos assuntos chineses falam, mas quase ninguém fora deste círculo especializado parece levar a sério: tudo na China é falso; a nação inteira é falsa; o próprio ethos do povo foi remodelado depois da revolução, e até mesmo sua língua foi imposta.
Estima-se que tenham morrido cerca de setenta milhões no processo revolucionário chinês. Destes, pelo menos vinte por cento seguramente eram idosos, se considerarmos os números ditos oficiais. O problema é que esses números não se coadunam com informações bastante relevantes sobre o Grande Salto Adiante chinês:
O regime procurou destruir tudo o que era tradicional, pois pretendia romper com o passado. O próprio slogan criado pelo regime denota esta política.
A expectativa de vida era, sendo bastante generoso, quarenta e seis anos; e não era por causa da fome; tal situação já era assim antes, e a fome só agravou.
Racionalizando essas duas características da época, afirmar que apenas vinte por cento dos idosos foram exterminados, como dizem as estatísticas oficiais, é um contrassenso. Simplesmente não havia, estatisticamente, muitas pessoas com idade tão avançada assim. Se morreram oficialmente vinte por cento, devemos adicionar, pelo menos, boa parte dos adultos cuja faixa etária estivesse entre quarenta e sessenta anos.
Por isso, não é leviano afirmar que mais da metade da população que detinha conhecimentos tradicionais sobre o que é ser chinês foi exterminada, com boa parte do remanescente silenciada ao longo do tempo — morrendo ou sendo morta —, até o boom de nascimentos politicamente forçados que se iniciou em 1962 com a política de “um mar de homens para a revolução” e terminou em 1982, dando início à política do filho único.
Por que digo isso? Porque toda a cultura chinesa, suas idiossincrasias linguísticas, suas diferenças religiosas e sua diversidade étnica foram varridas da existência pela revolução. O cidadão chinês contemporâneo é a versão beta do “novo homem comunista”. O idoso de hoje, na China, é um inimigo do Ocidente, pois é o mesmo jovem ou adulto, de dezesseis a trinta anos, que apontou uma Kalashnikov para o próprio avô ou pai na década de 1950. Em suma, não resta algo como um legado do povo chinês, exceto nos livros, quase todos proibidos ou queimados.
Portanto, ao ler o primeiro parágrafo destacado na nota de rodapé, deve-se ter em mente que o que está por trás do estereótipo de competitividade econômica chinesa é o coletivismo escravocrata comunista, que demanda o próprio sangue desse “novo homem” em prol da causa. A retórica da eficiência desumana do processo capitalista, na busca exacerbada por produtividade mediante excesso de trabalho, disciplina e meritocracia, além de ser uma falácia em si mesma quando se refere ao verdadeiro capitalismo de mercado, não possui, nem de longe, o mesmo sentido do fenômeno chinês, ainda que aparentemente análogo.
Essa “eficiência”, que supostamente gera alguma prosperidade mediante turnos de dezesseis horas, suicídios e inúmeras outras mazelas, é, em grande parte, propaganda. Deixo como evidência o vídeo abaixo: nele, o convidado, que já escreveu livros sobre o assunto, demonstra como a Apple montou a estrutura, treinou os profissionais, padronizou e implementou o moderno processo de fabricação de seus dispositivos, desde o chão de fábrica e a logística até a comercialização dos produtos nas lojas. Esse modelo foi copiado e implantado pelo PCC nos mais variados setores da economia chinesa, constituindo uma verdadeira mina de ouro de conhecimento que representa o pilar fundamental da suposta excelência desse “tigre asiático”. Sem o pesado investimento da Apple e a genialidade de seus cientistas, a China jamais seria o que é hoje.
É chover no molhado afirmar que o sucesso chinês é praticamente todo fruto do roubo de propriedade intelectual e de segredos industriais, associado à exploração de mão de obra abundante e barata, somada a uma boa dose de fraude nos processos de controle de qualidade. Poucos, no entanto, conseguem conceber o nível de corrupção que o PCC consegue alcançar. Recomendo a seguinte lista de vídeos sobre o mercado de veículos elétricos chinês como denúncia de apenas um setor:
Desmascarado o mito da eficiência do sistema chinês, torna-se evidente que não se pode menosprezar um processo que não guarda qualquer semelhança com seu suposto “equivalente” ocidental, especialmente considerando que tal processo é, em si, fraudulento. O governo e a sociedade chinesa têm pouco ou nenhum mérito no seu alegado “sucesso” econômico que o partido promove no ocidente mediante propina. No geral, seus resultados são desprovidos de qualquer impacto positivo genuíno. Trata-se de um mito fabricado pelo Partido Comunista Chinês para incutir artificialmente no imaginário ocidental uma falsa dicotomia.
Se é ruim acreditar que houve algum processo de abertura no desenrolar histórico da Revolução Chinesa, pior ainda é pensar que sua sociedade tem algum valor “caro” a nós, ocidentais. Acho que, neste ponto do texto, é possível perceber que tal afirmação não pode ser considerada.
Em primeiro lugar, não houve qualquer tipo de abertura, nem mesmo econômica. Foi tudo planejado, implementado e microgerenciado pelo PCC. Nunca devemos esquecer que o chinês da revolução é o avô de hoje e que o chinês é um revolucionário, seja por natureza, seja por doutrina.
Eu sugiro que assinem o canal China Uncensored no YouTube e assistam a amostras de vídeos dos últimos 10 anos para entenderem o que quero dizer, pois não é o objetivo deste texto aprofundar-se nesse aspecto.
Para finalizar, é necessário entender que a sociedade chinesa é uma sociedade de confiança zero (“zero-trust”), como afirma o canal Serpentza.
O filósofo americano Ralph Waldo Emerson, especialmente em seus ensaios sobre individualismo e autossuficiência, como “Self-Reliance” (1841), afirma diretamente que a sociedade americana é baseada na palavra ou na confiança em honrar a palavra dada. Esses valores representam o oposto do que ocorre na China hoje. Não sei a que valores o professor se refere, mas a maioria dos valores que me são caros como conservador não está em voga na sociedade chinesa há pelo menos 30 anos. Talvez estejam apenas nos escritos filosóficos anteriores à revolução que sobreviveram ao expurgo, nos filmes de Kong Fu da década de 1970, ou na mente de poucos chineses tradicionalistas que resistem em silêncio enquanto são perseguidos e têm seus órgãos retirados nos campos de concentração do partido.


